Cadê o meu emprego?

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Gustavo Cunha

Fui recentemente desafiado por dois amigos a fazer uma previsão de como será o mercado de trabalho em 2030 e, apesar de ser senso comum que as coisas estão mudando em um ritmo intenso, durante minhas pesquisas e reflexões ainda assim me surpreendi com sua velocidade.

Minha primeira sensação ao aceitar esse desafio foi a mesma que sempre tive quando, durante toda a minha carreira, inúmeras vezes me perguntaram para onde iria a cotação do dólar. Sempre dei uma resposta bem fundamentada, baseada em dados macroeconômicos, mas no fundo no fundo eu sempre lembrei de uma frase que dizia que a melhor previsão futura para qualquer moeda é sua cotação atual! Mas, mesmo assim, eu sempre assumi o risco. Se acertei mais do que errei, nem eu sei! Mas vamos lá; mercado de trabalho em 2030.

Primeiro algumas constatações para embasar as previsões.

O mercado de trabalho mundial esta passando por uma revolução tão grande quanto a que aconteceu no final do século XVIII e começo do século XIX, quando a revolução industrial trouxe a primeira noção de que teríamos máquinas substituindo o trabalho humano de forma massiva. E isso realmente ocorreu. Quem não se lembra do filme do Charles Chaplin apertando parafusos que nem um louco?

Este temor na época levou a várias greves e previsões bastante pessimistas quanto ao futuro do emprego. O que vimos, nas décadas seguintes, foi uma mudança radical do mercado de trabalho com uma transição massiva da força de trabalho do setor manufatureiro para o setor de serviços. E isso se intensificou bastante nas décadas mais recentes, quando cada vez mais máquinas e robôs substituíram o trabalho repetitivo das grandes fábricas.

Atualmente estamos presenciando a entrada de novas tecnologias (máquinas, ou robôs se preferir) em setores que historicamente pareciam estar “mais protegidos”. Vou citar dois: o primeiro é o campo médico, no qual uma parceria da IBM (através do seu braço de inteligência artificial IBM Watson) com o hospital Memorial Sloan Kettering está revolucionando o diagnóstico o tratamento doe câncer. Utilizando o banco de dados do hospital e mais centenas de outros trabalhos sobre câncer, o IBM Watson é capaz de diagnosticar o tipo de câncer e sugerir tratamentos de maneira tão ou mais eficaz do que os médicos (para saber mais vale um pulo no site:http://www.ibm.com/watson/health/oncology/). Outro caso é o da indústria automobilística, na qual mais de uma dúzia de empresas está testando tecnologias para automatizar o transporte. E por que não citar o caso do UBER, que veio para revolucionar um setor que parecia bastante protegido que era o de transporte de passageiros via carro nas grandes cidades (taxis)?

Agora, vamos pensar onde podemos chegar com esse desenvolvimento da tecnologia. Uma coisa é bastante certa, a noção de emprego, como temos hoje, dificilmente existirá em 2030. Estou me referindo ao emprego tradicional com horário e endereço fixos, descansos semanais e códigos de vestimentas definidos pela empresa.

A flexibilidade de local de trabalho acredito ser a primeira das grandes mudanças que se intensificarão nos próximos anos. Na área de Fintech, setor no qual estou bastante envolvido recentemente, não é incomum desenvolvimentos serem feitos remotamente, por pessoas de outros estados ou até países.

A segunda mudança que se intensificará é a ideia de se ter um único empregador. Vemos, cada vez mais, profissionais com habilidades específicas trabalhando de forma autônoma. São profissionais que têm uma grande habilidade/conhecimento e “vende” esse conhecimento para várias empresas que dele precisam. Aqui se enquadram consultores, freelancers, coachers, tutores, etc. Para as empresas isso é uma vantagem, já que a parte repetitiva dos trabalhos será sistematizada, através do uso da tecnologia, e para a parte criativa/inovativa ela terá acesso aos melhores profissionais onde e quando quiser, não tendo que arcar com o custo desses profissionais em momentos em que não precisa deles.

Uma terceira mudança, a qual talvez seja a raiz de todas as demais, está no conceito de propriedade, ou seja, de ter para você determinado ativo, que é um conceito que dia após dia está se tornando irrelevante, seja pelos jovens que cada vez menos se interessam em comprar um bem , mas sim ter experiências, ou pela facilidade de acesso a qualquer bem sem que você o tenha. A lista de sites e aplicativos que ajudam nisso é imensa, indo de airbnb, uber até locais de co-woking e até de co-living. Isso muda muito o mercado de trabalho porque a demanda por bens cai imensamente. É só pensar no tempo que o seu carro fica parado para se ter ideia do quanto ineficiente é tê-lo do ponto de vista de uso. Com a demanda por bens caindo, e as industrias mais robotizadas, a imensa queda no número de trabalhadores nesse setor que já está ocorrendo e deve se intensificar.

A quarta mudança diz respeito ao acesso ao conhecimento e à forma de trata-lo/interpretá-lo. Está claro que o conhecimento hoje não é mais uma barreira como era há anos. Eu, por exemplo, que nunca tinha feito nada na web e tenho conhecimento rudimentar de computação, consegui sozinho (tudo bem, não exatamente sozinho, já que tive ajuda de vários vídeos do youtube) colocar um site no ar, bom o suficiente para não passar vergonha! Conhecimento está disponível para quem quiser e a hora que quiser. O diferencial para o mercado de trabalho não será mais ter conhecimento, já que esse virou commodity, mas sim a forma de trabalhar e interpretar este conhecimento, o que eu chamaria de criatividade no sentido amplo. Criatividade para encontrar as melhores soluções para os problemas colocados.

Dito isso, cadê o meu emprego?

Bem, o emprego em 2030 estará disponível de um modo flexível e com vários chefes, embora em menor quantidade, para quem tiver capacidade de criação/interpretação. Isso leva a várias preocupações, como por exemplo, como se encaixará a maioria da população mundial que tem baixo nível de conhecimento, menos acesso à tecnologia e, porque não dizer, menor capacidade cognitiva? Esse cenário levará a uma maior concentração de renda? Qual o papel do estado nesse mundo, se é que ele terá algum papel? Como ficam as relações humanas nesse cenário? Mas estas são perguntas para serem respondidas em outra ocasião!:)

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Links interessantes nos quais me inspirei para escrever esse texto:

— Arturo Bris (IMD) – “Which jobs will disappear in the future? 60% of the jobs which the new generations will do, do not exist yet.”http://kanaalz.knack.be/embed/video/750551 .

https://www.theguardian.com/careers/2016/oct/13/will-jobs-exist-in-2050

— Andrew McAfee: Como serão os empregos do futuro?https://www.youtube.com/watch?v=cXQrbxD9_Ng

— Federico Pistono: Robots Will Steal Your Job, but That’s OK.https://www.youtube.com/watch?v=kYIfeZcXA9U