A REVOLUÇÃO EM INVESTIMENTOS TRAZIDA PELO BLOCKCHAIN

Gustavo C S Cunha [1]

O termo ICO (Inicial Coin Offering) tem sido amplamente divulgado como sendo uma revolução na forma como as start-ups têm para se financiar. Mas o que é isso? Será mesmo que é uma forma tão poderosa de financiamento? Será seguro? Vale a pena investir nisso? São essas as questões que tento esclarecer a seguir.

Até pouco tempo atrás, o financiamento de pequenos negócios ligados à inovação era feito por investidores anjos, aceleradoras ou empresas de venture capital. Era para onde todas as start-ups corriam quando precisavam ganhar escala em seus negócios e, portanto, precisavam de dinheiro para isso.

Essas empresas tinham todas um processo de investimento através do qual elas selecionavam as start-ups que deveriam receber dinheiro e buscavam em troca participação societária nas empresas escolhidas. No caso das aceleradoras, esse processo de análise era tão importante quanto a pulverização das empresas onde os recursos seriam aplicados, já que era sabido que a taxa de sobrevivência dessas empresas em um período de mais de 2 anos era pequena, mas esperava-se que pelo menos uma, entre as várias escolhidas, desse certo e mais que compensasse as perdas com as que tivessem dado água.

No caso de um investidor normal, a solução era ingressar em um grupo de anjos para fazer essa análise e ter essa pulverização, ou aplicar em um dos fundos de venture capital que iriam em busca dessas empresas. No caso dos investidores anjos e aceleradoras, em geral, os investimentos ficavam limitados a uma determinada área geográfica, o que em um mundo global como temos hoje pode trazer desvantagens, como, por exemplo, alguém estar já desenvolvendo algo do outro lado do mundo e ter financiamento maior para acelerar o seu negócio. O Uber é um exemplo disso. Antes que alguém copiasse seu modelo de negócio, ele se expandiu rapidamente pelo mundo inteiro.

Bem, uma das funcionalidades trazidas pelo Blockchain (ver o Relatório Executivo do dia 4 de dezembro, onde explico o assunto) é a criação de tokens de uma forma segura e individualizada. Essa tecnologia faz com que todas as start-ups que queiram se financiar tendo acesso diretamente ao investidor de uma forma pulverizada (crowdfunding) consigam fazê-lo.

Essas empresas precisam de uma plataforma na qual irão emitir esse token, e fazer o seu ICO. Em muitos casos, esse token se assemelha à ação de uma companhia aberta, por isso o nome ICO ter sido originado do termo IPO (Inicial Public Offering), que é a colocação inicial de ações que uma companhia aberta faz para ter suas ações negociadas em bolsa.

A semelhança é tão grande que a maioria desses tokens, depois de emitidos de forma quase privada, começam logo a ser negociados nas bolsas de criptomoedas do mundo. O controle e registro dessas operações trazem um desafio enorme para os reguladores e, no caso do Brasil, a CVM já deixou claro em mais de um comunicado que essas operações devem ser apresentadas ao órgão para receberem autorização ou dispensa. O problema é que vários países têm tido posturas mais abertas em relação a isso e, como a maioria dos investimentos é feita via criptomoedas (que não têm o fator territorial), seu controle é mais complexo.

Para termos uma ideia do tamanho que esse mercado já alcança, somente durante o segundo semestre de 2017 empresas levantaram através de ICOs mais de US$ 5 bilhões. E o crescimento é imenso como pode ser visto na animação do site (https://elementus.io/token-sales-history).

Esses tokens que são gerados via ICOs trazem grandes vantagens para os investidores que querem aplicar recursos em start-ups:

  • Como a maioria desses tokens são negociados em bolsas de criptomoedas, o investidor pode entrar e sair a qualquer momento, diferentemente dos investimentos feitos via estruturas envolvendo anjos, onde é difícil encontrar outra pessoa para comprar a sua participação;
  • Os projetos podem ser em qualquer lugar do mundo e vão desde empresas de gestão de fundos na Suíça, passando por empresas que querem revolucionar a internet das coisas, a plataformas de transações entre países. Os mais variados projetos nos mais variados lugares.

Mas isso também traz algumas preocupações/desafios para os investidores:

  • Vários projetos fraudulentos têm aparecido na rede para serem financiados. E como o arcabouço jurídico ainda está sendo construído, eventuais perdas por fraude são difíceis de serem ressarcidas. Portanto, a melhor forma é estudar bem o projeto e ficar atento para não entrar em projetos fraudulentos;
  • Mesmo o projeto sendo real, aspectos como capacidade de entrega do time, conhecimento, organização, tamanho do mercado que pretendem atuar, destinação do dinheiro, entre outros fatores, são de suma importância que sejam esclarecidos;
  • Em todos esses investimentos temos a figura da chave privada (senha) que, se perdida, faz com que o investidor não tenha acesso nunca mais ao investimento.

De modo geral, os tokens gerados via processos de ICOs são uma forma nova de investimento e vieram para ficar. Seu desenvolvimento em 2018 deve ser imenso e em um futuro próximo alguma parte dos investimentos de todos nós será direcionado para isso. Muito antes do que você espera, na minha opinião.

 

[1] Sócio da FinLab/Bom de Bolso, parceira estratégica da GO Associados. Texto é parte integrante do Relatório Executivo da GO Associados, de 02/01/2018

BLOCKCHAIN – A nova vedete do mercado

Gustavo Cunha[1]

Blockchain é a nova vedete do mercado. Atualmente é quase impossível conversar com alguém sobre futuro, inovação ou tecnologia, sem esbarrar nessa palavra. Outro sinal claro disso está sendo a difusão de eventos sobre o tema; estive em cinco nesses últimos meses. Mas o que é blockchain? Para que serve? É isso o que explicarei a seguir.

Para começar, vamos ver de onde ele surgiu. O blockchain é a tecnologia por trás da criptomoeda Bitcoin, cuja negociação, interesse e preço têm crescido exponencialmente nos últimos anos. Desta forma, a primeira aplicação do blockchain foi para viabilizar transações monetárias entre desconhecidos de maneira segura e sem uma contraparte central para garantir as operações.

Explicando de maneira simples, o blockchain é um grande banco de dados monitorado por vários computadores. As operações são gravadas em ordem cronológica e depois de gravadas não se consegue alterá-las. Trata-se um “protocolo da confiança” que tem na descentralização e na imutabilidade dos dados sua segurança.

Uma vantagem do blockchain é o fato dele ter uma atitude preventiva, e não reativa, em relação às fraudes. Para que a transação ocorra por meio do blockchain, temos de concordar com suas características e checar, entre outras coisas, sua validade, de tal forma que se a operação é registrada é porque foi validada. Hoje, no caso de cartões de crédito, por exemplo, primeiro as operações são registradas para depois serem canceladas caso ocorra alguma coisa errada.

As utilizações do blockchain são inúmeras, e são tão mais eficientes quanto mais usuários precisarem trocar informações. Na área médica, por exemplo, será possível guardar todas as informações relativas ao histórico de saúde de uma pessoa, como exames, vacinas, procedimentos e diagnósticos, em uma conta pessoal única, facilitando assim o acesso aos dados pelos médicos a qualquer momento.

Outra utilização será o registro de imóveis, pois o bem poderá ser registrado dentro de um blockchain, fazendo com que seja desnecessário se ter um cartório atestando a propriedade do imóvel. Podemos ainda mencionar a Bolsa de Valores, bancos e até o Uber e o Airbnb. Ou seja, sua grande utilização vem do fato da descentralização, associada à imutabilidade dos registros no banco de dados, tornarem desnecessária a existência de intermediários.

Parece uma coisa magnífica, e eu realmente acho que é, mas ela traz, como tudo, alguns pontos de atenção. O primeiro é uma mudança na nossa forma de pensar; hoje temos todos nossos bens custodiados/garantidos por um intermediário, seja banco, corretora, bolsa, cartório de imóveis etc. Caso ocorra algum problema, recorremos a eles e pronto. No caso de estruturas de blockchain não há um terceiro responsável. Toda a responsabilidade passa para o usuário o que pressupõe uma necessidade grande segurança digital para ele. Por outro lado, há aqui também um maior empoderamento do indivíduo, já que esse terá todas suas informações e as dará para quem ele quiser.

Outro fator é que a nossa estrutura jurídica, que assim como nossa forma de pensar, está baseada em uma contraparte central, ou se preferir, um intermediário. A quebra de barreiras entre países e, mais precisamente no caso das criptomoedas, a não existência de uma contraparte central onde as operações sejam registradas e possam ser visualizadas, taxadas e controladas, são outro ponto de atenção importante.

Acho que ficou claro que sou um entusiasta dessa tecnologia, e acredito que ela mudará significativamente o cenário financeiro, econômico, tecnológico e transacional nos próximos anos, fazendo com que tenhamos uma economia muito menos centralizada e com um empoderamento enorme das pessoas no controle das suas vidas. Também acredito que esse processo que começou agora é irreversível, e que quanto menor a intervenção do estado na sociedade, maior e mais rápida será a sua transformação.

Tem alguma dúvida sobre seu planejamento financeiro ou investimento? Mande-a para nós! contato@finlab.com.br

 

[1] Sócio da FinLab/Bom de Bolso

Texto publicado no relatório executivo da GO associados de 04/dez/2017

Cadê o meu emprego?

cadeomeuemprego

Gustavo Cunha

Fui recentemente desafiado por dois amigos a fazer uma previsão de como será o mercado de trabalho em 2030 e, apesar de ser senso comum que as coisas estão mudando em um ritmo intenso, durante minhas pesquisas e reflexões ainda assim me surpreendi com sua velocidade.

Minha primeira sensação ao aceitar esse desafio foi a mesma que sempre tive quando, durante toda a minha carreira, inúmeras vezes me perguntaram para onde iria a cotação do dólar. Sempre dei uma resposta bem fundamentada, baseada em dados macroeconômicos, mas no fundo no fundo eu sempre lembrei de uma frase que dizia que a melhor previsão futura para qualquer moeda é sua cotação atual! Mas, mesmo assim, eu sempre assumi o risco. Se acertei mais do que errei, nem eu sei! Mas vamos lá; mercado de trabalho em 2030.

Primeiro algumas constatações para embasar as previsões.

O mercado de trabalho mundial esta passando por uma revolução tão grande quanto a que aconteceu no final do século XVIII e começo do século XIX, quando a revolução industrial trouxe a primeira noção de que teríamos máquinas substituindo o trabalho humano de forma massiva. E isso realmente ocorreu. Quem não se lembra do filme do Charles Chaplin apertando parafusos que nem um louco?

Este temor na época levou a várias greves e previsões bastante pessimistas quanto ao futuro do emprego. O que vimos, nas décadas seguintes, foi uma mudança radical do mercado de trabalho com uma transição massiva da força de trabalho do setor manufatureiro para o setor de serviços. E isso se intensificou bastante nas décadas mais recentes, quando cada vez mais máquinas e robôs substituíram o trabalho repetitivo das grandes fábricas.

Atualmente estamos presenciando a entrada de novas tecnologias (máquinas, ou robôs se preferir) em setores que historicamente pareciam estar “mais protegidos”. Vou citar dois: o primeiro é o campo médico, no qual uma parceria da IBM (através do seu braço de inteligência artificial IBM Watson) com o hospital Memorial Sloan Kettering está revolucionando o diagnóstico o tratamento doe câncer. Utilizando o banco de dados do hospital e mais centenas de outros trabalhos sobre câncer, o IBM Watson é capaz de diagnosticar o tipo de câncer e sugerir tratamentos de maneira tão ou mais eficaz do que os médicos (para saber mais vale um pulo no site:http://www.ibm.com/watson/health/oncology/). Outro caso é o da indústria automobilística, na qual mais de uma dúzia de empresas está testando tecnologias para automatizar o transporte. E por que não citar o caso do UBER, que veio para revolucionar um setor que parecia bastante protegido que era o de transporte de passageiros via carro nas grandes cidades (taxis)?

Agora, vamos pensar onde podemos chegar com esse desenvolvimento da tecnologia. Uma coisa é bastante certa, a noção de emprego, como temos hoje, dificilmente existirá em 2030. Estou me referindo ao emprego tradicional com horário e endereço fixos, descansos semanais e códigos de vestimentas definidos pela empresa.

A flexibilidade de local de trabalho acredito ser a primeira das grandes mudanças que se intensificarão nos próximos anos. Na área de Fintech, setor no qual estou bastante envolvido recentemente, não é incomum desenvolvimentos serem feitos remotamente, por pessoas de outros estados ou até países.

A segunda mudança que se intensificará é a ideia de se ter um único empregador. Vemos, cada vez mais, profissionais com habilidades específicas trabalhando de forma autônoma. São profissionais que têm uma grande habilidade/conhecimento e “vende” esse conhecimento para várias empresas que dele precisam. Aqui se enquadram consultores, freelancers, coachers, tutores, etc. Para as empresas isso é uma vantagem, já que a parte repetitiva dos trabalhos será sistematizada, através do uso da tecnologia, e para a parte criativa/inovativa ela terá acesso aos melhores profissionais onde e quando quiser, não tendo que arcar com o custo desses profissionais em momentos em que não precisa deles.

Uma terceira mudança, a qual talvez seja a raiz de todas as demais, está no conceito de propriedade, ou seja, de ter para você determinado ativo, que é um conceito que dia após dia está se tornando irrelevante, seja pelos jovens que cada vez menos se interessam em comprar um bem , mas sim ter experiências, ou pela facilidade de acesso a qualquer bem sem que você o tenha. A lista de sites e aplicativos que ajudam nisso é imensa, indo de airbnb, uber até locais de co-woking e até de co-living. Isso muda muito o mercado de trabalho porque a demanda por bens cai imensamente. É só pensar no tempo que o seu carro fica parado para se ter ideia do quanto ineficiente é tê-lo do ponto de vista de uso. Com a demanda por bens caindo, e as industrias mais robotizadas, a imensa queda no número de trabalhadores nesse setor que já está ocorrendo e deve se intensificar.

A quarta mudança diz respeito ao acesso ao conhecimento e à forma de trata-lo/interpretá-lo. Está claro que o conhecimento hoje não é mais uma barreira como era há anos. Eu, por exemplo, que nunca tinha feito nada na web e tenho conhecimento rudimentar de computação, consegui sozinho (tudo bem, não exatamente sozinho, já que tive ajuda de vários vídeos do youtube) colocar um site no ar, bom o suficiente para não passar vergonha! Conhecimento está disponível para quem quiser e a hora que quiser. O diferencial para o mercado de trabalho não será mais ter conhecimento, já que esse virou commodity, mas sim a forma de trabalhar e interpretar este conhecimento, o que eu chamaria de criatividade no sentido amplo. Criatividade para encontrar as melhores soluções para os problemas colocados.

Dito isso, cadê o meu emprego?

Bem, o emprego em 2030 estará disponível de um modo flexível e com vários chefes, embora em menor quantidade, para quem tiver capacidade de criação/interpretação. Isso leva a várias preocupações, como por exemplo, como se encaixará a maioria da população mundial que tem baixo nível de conhecimento, menos acesso à tecnologia e, porque não dizer, menor capacidade cognitiva? Esse cenário levará a uma maior concentração de renda? Qual o papel do estado nesse mundo, se é que ele terá algum papel? Como ficam as relações humanas nesse cenário? Mas estas são perguntas para serem respondidas em outra ocasião!:)

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Links interessantes nos quais me inspirei para escrever esse texto:

— Arturo Bris (IMD) – “Which jobs will disappear in the future? 60% of the jobs which the new generations will do, do not exist yet.”http://kanaalz.knack.be/embed/video/750551 .

https://www.theguardian.com/careers/2016/oct/13/will-jobs-exist-in-2050

— Andrew McAfee: Como serão os empregos do futuro?https://www.youtube.com/watch?v=cXQrbxD9_Ng

— Federico Pistono: Robots Will Steal Your Job, but That’s OK.https://www.youtube.com/watch?v=kYIfeZcXA9U